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Portanto, só quando amar é dever, só então o amor está eternamente assegurado. agosto 20, 2007

Posted by igmaiki in Filosofia.
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Portanto, só quando amar é dever, só então o amor está eternamente assegurado. Esta garantia da eternidade lança fora toda angústia e torna perfeito o amor, perfeitamente garantido. Pois naquele amor que só tem duração, por mais cheio de confiança que ele, há todavia ainda uma angústia, uma angústia diante da possibilidade da alteração. Ele mesmo não compreende, tampouco como o poeta, que se trata da angústia; pois a angústia se oculta, e só o desejo ardente é a expressão pela qual se reconhece que a angústia se oculta no fundo. Não fosse assim, de onde viria então que o amor espontâneo esteja tão inclinado, sim, tão enamorado de pôr à prova o amor? É justamente porque ele não se submeteu à “prova” no sentido mais profundo, transformando-se em dever. Daí vem essa doce inquietação, como o poeta a chamaria, que de maneira cada vez mais atrevida quer fazer a prova do amor. O amante quer pôr à prova a amada, o amigo quer pôr à prova o amigo; é claro que este exame tem seu fundamento no amor, mas este prazer de prova, que se inflama febrilmente, este anelo do desejo de ser posto à prova explica, contudo, que inconscientemente o amor está inseguro de si mesmo. Mais uma vez, aqui, há um enigmático mal-entendido no amor espontâneo e nas explicações do poeta. Os amantes e os poetas acham que esse prazer de querer provar o amor é precisamente uma expressão de quão seguro ele está. Mas será que é assim mesmo? É bem correto que não desejamos pôr à prova aquilo que nos é indiferente; mas daí não se segue, afinal, que o querer pôr à prova o que se ama seja uma expressão de segurança. Os dois se amam mutuamente, amam-se mutuamente para toda a eternidade, eles estão tão seguros disso que eles o provam. Será esta certeza a mais alta? Não seria aqui exatamente o mesmo caso como quando o amor jurava e contudo jurava por algo que é mais abaixo do que o amor? Assim é, afinal, aqui, a expressão mais elevada dos amantes para a continuidade do seu amor, uma expressão de que ele apenas perdura, pois aquilo que apenas se mantém, nós o provamos, nós pomos à prova. Mas quando há o dever de amar, aí não é necessária nenhuma prova, nem o atrevimento que a insulta ao querer provar; aí o amor é superior a qualquer prova, ele já conseguiu mais do que passar numa prova, no mesmo sentido em a fé é “mais do que vencedora”. O provar se relaciona sempre com uma possibilidade, é de qualquer modo sempre possível que aquele que é provado não seja aprovado. Caso, então, alguém quisesse provar se tem fé, ou prova para receber a fé, isso significaria propriamente que ele se impedirá de receber a fé, colocar-se-á a si mesmo na inquietação de uma aspiração, onde a fé jamais vence, pois “tu deves amar”. Se caso um crente quisesse pedir a Deus para colocar sua fé à prova, isso não seria uma expressão de que este crente tem fé em um grau extraordinariamente alto (pensar assim é um mal-entendido do poeta, assim como também é um mal-entendido ter fé num grau “extraordinário”, uma vez que a fé ordinária é o que é de mais alto), mas é uma expressão de que ele não tem uma fé completa, pois “tu deves crer”. Jamais se encontrou uma garantia mais alta, e jamais se encontrou a calma da eternidade em alguma outra coisa que não fosse este “deves”. Por mais delicioso que seja, não deixa de ser um pensamento inquieto o querer “provar”, e é a inquietude que te quer convencer de que esta seria uma convicção mais alta; pois provar é em si mesmo inventivo e jamais se esgota, tampouco quanto a sabedoria humana consegue calcular todos os casos, enquanto, ao contrário, como um homem sério o diz tão acertadamente, “a fé calculou todos os casos”. E quando se deve, então está decidido para toda a eternidade, e quando compreenderes que tu deves amar, teu amor estará assegurado eternamente.

As Obras do Amor: algumas considerações cristãs em forma de discursos – Søren A. Kierkegaard

 

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