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A singularidade do Aikido agosto 5, 2007

Posted by igmaiki in Aikido.
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Em sua essência, o Aikido é uma manifestação moderna das artes marciais japonesas (Budo). É ortodoxo enquanto tem como legado a tradição espiritual e marcial do antigo Japão, registrada pela primeira vez nas obras literárias e históricas do século VIII, Kojiki (Compilação dos Fatos Antigos) e Nihongi (Crônicas do Japão). Isso não quer dizer que o Aikido continue cegamente a tradição das antigas artes de combate, meramente preservando e mantendo a sua forma original no mundo moderno.

As antigas artes de combate constituem um legado histórico e cultural, tendo se originado no campo de batalha em períodos de conturbações sociais e posteriormente formalizadas como Budo, o Caminho das Artes Marciais, no período Tokugawa (1603-1868). Precisam ser avaliadas e apreciadas devidamente. Em sua forma original, não são aceitas pelas pessoas de hoje e estão fora de lugar no mundo moderno que, especificamente para o Japão, teve início com a Restauração Meiji (1868).

O fundador do Aikido, mestre Morihei Ueshiba, nasceu em 14 de dezembro de 1883. Vivendo no período turbulento da modernização do Japão, dedicou-se a criar uma arte marcial que fosse ao encontro das necessidades dos seus contemporâneos, mas que ao mesmo tempo não fosse anacrônica. Os fatores seguintes constituíam o núcleo do empenho do mestre Ueshiba: um amor permanente pelas artes marciais tradicionais, o cuidado para que esse amor não fosse mal entendido, e um desejo profundo de reviver a qualidade espiritual do Budo. Procurou alcançar seu objetivo através de uma busca incansável, alimentada por um treinamento constante nas artes marciais, da verdade do Budo por entre as vicissitudes da história japonesa moderna.

Por fim, mestre Ueshiba concluiu que o verdadeiro espírito do Budo não se encontra numa atmosfera competitiva e combativa, em que a força bruta domina e o objetivo maior é chegar à vitória a qualquer preço, mas sim na busca da perfeição como ser humano, física e mentalmente, através de treinamento cumulativo com espíritos gentis nas artes marciais. No seu ponto de vista, somente uma manifestação de Budo com as características de verdade como esta pode ter uma raison d’être no mundo moderno, e quando essa qualidade existe, ela está além de qualquer cultura ou época específica. Seu objetivo, de natureza profundamente religiosa, resume-se numa única afirmação: a unificação do princípio criador fundamental, ki, que permeia o universo, com o ki individual, inseparável da força da pulsação, de cada pessoa. Pelo treinamento constante da mente e do corpo, o ki individual se harmoniza com o ki universal, e essa unidade se manifesta no movimento dinâmico e ondulante do poder do ki, que é livre e fluido, indestrutível e invencível. Esta é a essência das artes marciais japonesas, e é assim que o Aikido a encarna.

Graças ao gênio do mestre Ueshiba, o primeiro princípio do Budo, tal como ele o formulou – o treinamento constante da mente e do corpo como disciplina básica para os seres humanos que trilham o caminho espiritual –, transformou-se numa arte marcial contemporânea, o Aikido. Podemos encontrá-lo hoje em todos os níveis e classes da sociedade e praticado por um incontável número de pessoas em todo o mundo por apresentar-se como a disciplina marcial mais adequada à nossa época.

Quando dizemos que o Aikido é um Budo moderno, não estamos simplesmente dizendo que uma arte marcial tradicional assumiu características contemporâneas encontradas em outras formas “modernizadas” de Budo, como o Judo, o Karate-do e o Kendo. Mesmo herdando os aspectos espirituais das artes marciais e ressaltando o treino da mente e do corpo, as outras artes destacaram a competição e os torneios, pondo em evidência sua natureza atlética, dando prioridade à vitória e garantindo assim um lugar no mundo dos esportes.

Contrariamente, o Aikido se nega a tornar-se um esporte competitivo e rejeita todas as formas de competição ou de confrontos que incluam divisões por pesos, classificações baseadas no número de vitórias e a premiação de campeões. Essas coisas são consideradas como combustível para o egoísmo, para a vaidade pessoal e para o desinteresse pelos outros. Uma grande tentação seduz as pessoas a se entregarem aos esportes de combate – todos querem ser vencedores – mas não há nada que seja mais prejudicial ao Budo, que tem como finalidade ultima livrar-se do egoísmo, chegar ao não-eu e, assim, realizar o que é verdadeiramente humano.

Não estamos criticando as demais artes marciais por se tornarem esportes modernos. Historicamente, essa direção era inevitável para a sua sobrevivência, especialmente no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, quando todas as artes marciais foram proibidas pelas autoridades da Ocupação Aliada. Mesmo como esportes, atraíram o interesse de muitas pessoas, quer como participantes quer como espectadoras. Isso é positivo, pois não há como negar que os jovens, de modo especial, são atraídos às artes marciais devido às competições e torneios que decidem quem é o melhor no campo. A despeito dessa tendência, o Aikido se recusa a entrar nesse círculo e permanece fiel à intenção original do Budo: o treinamento e o cultivo do espírito.

Ocasionalmente já se ouviram vozes no mundo do Aikido reclamando a realização de campeonatos, argumentando-se que, para sobreviver nos dias atuais, há necessidade de reunir um público maior. De fato, alguns praticantes de Aikido abriram escolas independentes propondo um “Aikido competitivo”. Esse é um assunto sério, visto que a transformação do Aikido em mais uma forma de esporte moderno poderia levar à sua inclusão nos encontro esportivos nacionais e, no futuro, talvez nos Jogos Olímpicos.

O Aikido traça uma linha democrática clara e precisa com relação a esse tipo de pensamento, e a razão é muito óbvia. O Aikido procura conservar a integridade do Budo e transmitir o espírito das artes marciais tradicionais, permanecendo fiel ao primeiro princípio do Budo, tal como enunciado por mestre Ueshiba: o treinamento constante da mente e do corpo como disciplina básica para seres humanos que trilham o cominho espiritual.

Na tradição do Budo, a adesão estrita aos ideais do Fundador e o compromisso com o Caminho têm prioridade sobre todas as demais considerações. Embora o público em geral talvez considere o Aikido apenas como mais uma forma de arte marcial combativa, a verdadeira razão de sua existência no mundo atual está na sua identificação com os ideais do mestre Morihei Ueshiba.

O lugar singular que o Aikido reivindica, e que o diferencia nitidamente tanto do Budo clássico como de seus correspondentes modernos, não pode ser verdadeiramente apreciado com base nos estereótipos que as pessoas têm das artes de combate. Esse fato, acrescido pelos princípios e movimento peculiares do Aikido, pode apresentar alguns obstáculos à popularização desta arte.

Num momento ou noutro, todos os praticantes de Aikido ouviram a pergunta: “O que é Aikido?”. Mesmo os estudantes mais avançados têm dificuldade em dar uma resposta precisa. Além disso, as pessoas que vêem os movimentos e as técnicas do Aikido pela primeira vez ficam confundidas ou céticas e têm muitas dúvidas e perguntas. Essas pessoas enquadram-se em dois diferentes grupos.

O primeiro grupo é formado por aqueles que vêem o Aikido com certas suposições sobre artes marciais, baseados no que ouviram ou leram. Ao presenciar demonstrações da arte, sua reação geral é de desapontamento, porque esperam ver uma exibição de força bruta, de combate, de violência – e mesmo, de técnicas mortais. À primeira vista, devido aos seus belos movimento ondulantes, o Aikido parece não ser violento; antes, dá a impressão de passividade. Muitas vezes ouvem-se comentários como estes: “Tudo parece ser coreografado e planejado”, “Numa situação crítica, seria inútil”, e outra mais. Essas críticas são compreensíveis e procedem especialmente dos jovens que procuram emoções forte na vitória e na conquista ou daqueles que dão guarida a chavões sobre as artes marciais, tais como os de que estas se constituem de gritos, suspiros, pontapés, socos e destruição de pessoas.

No segundo grupo encontram-se aqueles que entraram em contato com as artes marciais modernizadas, especialmente com as suas formas competitivas, e consideram o Aikido a partir desse ponto. Suas críticas são várias: “Por que o Aikido não promove campeonatos, como o Judô, o Karate-do e o Kendo?”, “Por que ele se limita a demonstrações públicas, que se tornam enfadonhas depois de se ver uma só delas?”, “Por não haver torneios, é impossível saber quem é o forte e quem é o fraco, quem são os principiantes e quais são os estudantes adiantados”, “Sem competições, ninguém pratica e treina com seriedade”. De novo, as críticas são compreensíveis, pois geralmente as pessoas querem ver quem tem a melhor técnica ou quem é mais forte.

Outra pergunta ingênua, mas freqüente, é: “Uma pessoa poder vencer uma luta se sabe Aikido?”.

Todas essas questões e críticas são simplistas e superficiais, demonstrando desconhecimento do princípio básico do Aikido e compreensão errônea da característica principal das artes marciais: o treinamento do espírito. Se uma pessoa desprovida de autodisciplina quiser exibir suas habilidades físicas e quiser aprender Aikido apenas por causa de sua técnica de luta, ela será solicitada a abandonar as práticas. Sem praticar efetivamente o Aikido com alguma paciência e sem experimentar esta arte de primeira mão, as perguntas nunca serão respondidas satisfatoriamente.

A única maneira de aprender o significado do Aikido e de obter algum benefício, palpável ou não, é praticar realmente a arte. A maioria dos praticantes passou por um processo assim: começam com dúvidas e perguntas, são iniciados na prática e gradualmente se familiarizam com o método e a forma do Aikido. Mais tarde, sentem sua irresistível atração e, por fim, obtêm certa compreensão de sua profundidade imensurável. Quem tenha percorrido este ciclo terá aprendido várias coisas sobre o Aikido que tornam uma arte marcial singular.

Em primeiro lugar, a pessoa se surpreenderá. Diferentemente da aparência suave vista nas demonstrações públicas, o Aikido pode ser realmente duro, vigoroso e dinâmico, com chaves de pulso fortes e golpes diretos (atemi). A despeito do que se poderia supor, o Aikido dispõe de várias técnicas devastadoras, especialmente as destinadas a desarmar e a dominar o inimigo.

Em seguida, ela ficará chocada ao descobrir o quanto é complicado e difícil, mesmo no nível de principiante, executar as técnicas e movimentos básicos, tais como as quedas (ukemi), o distanciamento adequado (maai), a entrada (irimi) e outros movimentos do corpo (tai-sabaki). O fato é que o corpo todo, não apenas os braços e as pernas, deve mover-se continuamente de uma maneira coordenada, e isso deve ser feito com rapidez, vigor e potência. É necessário um grau extraordinário de concentração mental e de agilidade, de equilíbrio e de reflexos para atuar com suavidade e rapidez.

Perceberá também a importância do controle da respiração, que inclui não somente a respiração normal, mas algo mais que se conecta com a energia ki. Este domínio do poder da pulsação é a base para a execução de qualquer movimento e garante a continuidade do fluxo dos movimentos. Além disso, está intimamente relacionado com filosofia do Budo desenvolvida por mestre Ueshiba, como veremos adiante.

Por fim, à medida que avança, o aluno ficará admirado com o incontável número de técnicas com suas variações e aplicações, todas caracterizadas pela racionalidade e economia. Só depois de experimentar a complexidade dos movimentos do Aikido é que ele terá condições de apreciar o valor central do ki, tanto o individual como o universal. E então começará a sentir a profundidade e o refinamento do Aikido como arte marcial.

Em síntese, somente através de um treinamento efetivo no Aikido é que podemos compreender plenamente a dimensão essencial do Budo – o treinamento constante da mente e do corpo como disciplina básica para os seres humanos que trilham o caminho espiritual. Só então podemos compreender completamente a recusa de competições e torneios de Aikido e o motivo que justifica as demonstrações públicas como sendo uma amostra de treinamento constante, e não de exibição de ego.

“O ESPÍRITO DO AIKIDO” – KISHOMARU UESHIBA

Comentários»

1. Francisco Fabiano - novembro 10, 2009

Parabéns pelo texto.

Você abordou o assunto como quem trata de uma tese mas sem perder a clareza.


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