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O Expressionismo Alemão (1919-1926) março 17, 2007

Posted by igmaiki in Cinema.
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Bibliografia: BORDWEL, David. “La forma fílmica y la história del Cine”.

 

O Expressionismo Alemão (1919-1926)

No começo da primeira guerra mundial, a produção da indústria cinematográfica alemã era relativamente pequena, ainda que se tenham realizado alguns filmes impressionantes. Os dois mil cinemas da Alemanha projetavam principalmente filmes franceses, italianos, norte-americanos, dinamarqueses. Ainda que a América e a França tenham imediatamente proibido os filmes alemães, este país nem sequer estava numa posição suficientemente firme para vetar os filmes franceses e americanos, já que nessa época os cinemas tenham muito pouco o que exibir.

Para combater a competência da importação, assim como para criar seus próprios filmes de propaganda, o governo alemão começou a apoiar a indústria cinematográfica. Em 1916, proibiu-se a importação de filmes de todos os países, exceto da neutra Dinamarca, cuja indústria cinematográfica mantinha vínculos estreitos com a Alemanha. A produção se incrementou rapidamente de uma dezena de pequenas companhias em 1911 e chegou a 131 em 1918. Em geral, a política do governo estimulou o fato destas companhias se associarem aos cartéis.

A guerra era impopular entre muitos alemães e as tendências rebeldes aumentaram desde o sucesso da Revolução Russa de 1917. Durante o inverno de 1916-1917, organizaram-se greves de longa duração e manifestações antibelicistas. Para promover os filmes pró-guerra, o governo, o banco alemão e um grande número de empresas industriais fundiram-se em várias companhias cinematográficas pequenas, criando a grande produtora UFA (abreviação de UniversumFilm Aktiengesellchaft) no final de 1917.

Assegurada por interesses essencialmente conservadores, a UFA se converteu em uma manobra para controlar não somente o mercado alemão, mas também o mercado internacional do pós-guerra. Com este enorme apoio financeiro, a UFA foi capaz de reunir técnicas esplêndidas e construir os estúdios melhor equipados da Europa. Estes estúdios atrairiam posteriormente a cineastas estrangeiros, dentre os quais se incluem o jovem Alfred Hitchcock. Durante os anos vinte, os alemães co-produziram muitos filmes com produtoras de outros países, ajudando desta forma a difundir a influência estilística alemã no estrangeiro.

No final de 1918 com o final da guerra, desapareceu a necessidade de uma aberta propaganda antimilitarista. Apesar de se continuarem fazendo os dramas e comédias mais comerciais, a indústria cinematográfica alemã centrou-se em três gêneros: um deles era a série de aventuras, muito popular em todas as partes, que apresentavam estórias de espionagem, detetives astutos ou ambientes exóticos; o segundo foi um breve ciclo de cinema de consumo de caráter sexual que tratava “educativamente” temas como homossexualidade e a prostituição; finalmente, a UFA passou a imitar as epopéias populares históricas italianas do período pré-guerra.

Este último tipo de filmes demonstrou ser um grande sucesso econômico para a UFA. Apesar das continuadas proibições e prejuízos contra os filmes alemães na América, na Inglaterra e na França, a UFA pôde por fim irromper no mercado internacional. Em setembro de 1919, “Madame Dubarry”, de Ernest Lubitsch, uma epopéia sobre a Revolução Francesa, inaugurava o magnífico Cine Palatz da UFA em Berlim. Este filme contribuiu para voltar a abrir o mercado cinematográfico mundial para a Alemanha. Foi extremamente popular nos Estados Unidos e ganhou a aclamação crítica também em muitos outros países.

Porém esse filme teve uma acolhida menos entusiástica na França, onde sua estréia foi continuamente atrasada por causa das acusações de que seria propaganda anti-francesa. Entretanto, funcionou bem em muitos mercados e logo foram exportados outros filmes de Lubitsch. Em 1923, ele se converteu no primeiro diretor alemão contratado por Hollywood.

Algumas pequenas companhias se mantiveram independentes por um breve tempo. Entre elas, estava a Decla (posteriormente Decla-Bioscop)* de Eric Pomnes. Em 1919, esta empresa decidiu produzir um roteiro pouco convencional de dois desconhecidos, Carl Mayer e Hans Janowitz. Os três diretores escolhidos para o filme – Herman Warm, Walter Reimann e Walter Röhsig – sugeriram que se fizesse ao estilo “expressionista”. Como movimento de vanguarda, o expressionismo havia sido importante primeiro na pintura (começando por volta de 1910) e foi adotado rapidamente no teatro e logo na literatura e arquitetura. Neste momento, as companhias oficiais estavam de acordo em tentá-lo no cinema, crendo evidentemente que isto poderia supor um triunfo no mercado internacional.

Esta crença resultou justificada quando o filme “O Gabinete do Doutor Caligari”, produção pouco custosa, causou sensação em Berlim e logo nos Estados Unidos, na França e em outros países. Graças a seu sucesso, em seguida, vieram outros filmes de estilo expressionista. O resultado foi um movimento estilístico cinematográfico que durou vários anos.

O sucesso de “O Gabinete do Doutor Caligari” e outros filmes expressionistas manteve uma boa parte dos diretores alemães de vanguarda dentro da indústria. Alguns poucos cineastas experimentais fizeram filmes abstratos, como Diagonalsymphonien (1923), de Viking Eggeling, ou filmes dadaístas influenciados por esse movimento artístico internacional, como Vormittagsspuk (1928), de Hans Richter. As grandes produtoras como a UFA (que absorveu a Decla-Bioscop em 1921), assim como as companhias menores, investiram em filmes expressionistas com a finalidade de competir com os americanos.

De fato, em meados dos anos vinte, os filmes alemães mais destacados considerados, de forma generalizada, os melhores do mundo. O primeiro do movimento “O Gabinete do Dr. Caligari” é também um dos exemplos mais típicos. Um de seus desenmistas, Warm, afirmava: “a imagem deve se converter em arte gráfica”. ‘O Gabinete do Doutor Caligari’, com sua estilização extrema, foi de fato como uma pintura ou uma xilografia expressionista em movimento. Em contraste como expressionismo francês, que baseia seu estilo principalmente na fotografia e na montagem, o expressionismo alemão depende muito da direção. As formas estão distorcidas e exageradas, de forma pouco realista, com fins expressivos. Os atores, em geral, usam muita maquiagem e se movem de forma espasmódica ou lenta e sinuosa. E, o que é mais importante, todos estes elementos da direção interagem graficamente para criar uma composição global. Os personagens não existem simplesmente dentro de um cenário, mas constituem elementos visuais no interior do cenário. Um exemplo disto pode ser detectado nas cenas de “O Gabinete do Doutor Caligari”, em que a personagem Cesare se localiza num bosque estilizado, enquanto seus braços e corpo estendidos imitam as formas dos galhos e ramos das árvores.

Em “O Gabinete do Doutor Caligari”, a estilização expressionista funciona para transmitir o ponto de vista distorcido de um louco. Vemos o mundo como assim o vê o herói. Esta função narrativa dos cenários se torna explícita no momento em que o herói entra nem asilo para perseguir a Caligari. Quando olha a seu redor, fica de pé no centro de um desenho de linhas brancas e pretas que se estendem desde o centro e cruzam o rolo até as paredes. O mundo do filme é praticamente uma projeção da visão do herói.

Mais tarde, quando o expressionismo se converteu em um estilo aceito, os cineastas já não tinham razões para que o estilo expressionista se baseasse no ponto de vista narrativo de personagens perturbadas. Em vez disso, o expressionismo funcionava minuciosamente para criar situações estilizadas em estórias fantásticas e de terror (como “O Homem das Figuras de Cera” [Das Wachsfigurernkabineu, 1924] e Nosferatu, o vampiro [1922]) ou epopéias históricas (como Os Nibelungos [Die Nibelungen, 1923-24]). Os filmes expressionistas dependiam em grande parte de seus diretores de arte. Nos estúdios alemães, o diretor de arte de uma película cobrava um salário relativamente alto e o mencionava com freqüência de forma destacada nos anúncios publicitários.

Uma combinação de circunstâncias conduziu ao desaparecimento do movimento. A inflação galopante de princípios nos anos vinte na Alemanha favoreceu, na realidade, o cinema expressionista, em parte ao facilitar que os exportadores alemães vendessem seus filmes baratos no exterior. No entanto, a inflação desanimou as importações, já que o decrescente valor do marco fez com que a compra dos filmes estrangeiros torna-se demasiadamente caras. Mas em 1924, o plano Dawes dos Estados Unidos ajudou a estabilizar a economia alemã, e os filmes estrangeiros chegavam com mais freqüência, oferecendo um grau de competência desconhecido na Alemanha durante quase uma década. Os pressupostos do cinema expressionista, no entanto, estavam sumindo. Os últimos grandes filmes do movimento, Fausto (Faust, 1926), de Murnau, e Mestrópolis, de Lang, eram epopéias caras que contribuíram para que a UFA se visse em dificuldades financeiras, levando Erich Pommer a abandonar a Alemanha e tentar a sorte na América. Outros membros do pessoal também se sentiram tentados por Hollywood. Marnau foi-se embora depois de acabar Fausto, sua ultima película alemã. Alguns atores importantes (como Conrad Veidt e Emil Jannings) e alguns diretores de fotografia (como Karl Freund) também se foram a Hollywood. Lang ficou, mas depois das críticas pelo esbanjamento de Metrópolis, em sua estréia de 1927, formou sua própria produtora e mudou para outros estilos em seus últimos filmes alemães. No começo do regime nazista, em 1933, também abandonou o pais.

Para tentar compensar a dura competência dos filmes importados de Hollywood depois de 1924, os alemães também começaram a imitar com mais freqüência os produtores americanos. Os filmes que resultaram, ainda que às vezes impressionantes, diluíram as qualidades únicas do estilo expressionista. Assim, em 1927, morria o expressionismo como movimento. Mas como tem assinalado George Sadoul, uma certa tendência “expressionista” se manteve em muitos dos filmes alemães do final dos anos vinte, e incluindo os filmes dos anos trinta como O Vampiro de Dusseldorf e O Testamento do Dr. Mabuse (Das Testament des Dr. Mabuse, 1933), de Lang. E posto que muitos cineastas alemães migraram para os Estados Unidos, os filmes de Hollywood também mostraram tendências expressionistas. Os filmes de terror, como O Filho de Frankenstein (The Son of Frankenstein, 1939), e o cinema negro têm fortes toques expressionistas em seus cenários e iluminação. Ainda que o movimento alemão durasse somente uns sete anos, o expressionismo nunca desapareceu de todo, como tendência estilística cinematográfica.

Comentários»

1. Maria Elisa Guimaraes - abril 13, 2007

Adorei o post, e por extensão, o seu blog…
Logo, vai para os meus favoritos.
Um abraço
Meg

2. victoria - junho 5, 2008

eu adorei a pesqueisa que viz

3. Thiago - março 31, 2009

Muito bom o post.


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