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co-sentimento fevereiro 8, 2007

Posted by igmaiki in Literatura.
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Em todas as línguas derivadas do latim, a palavra compaixão forma se com o prefixo ‘com’ e a raiz ‘passio’ que, na sua origem, significa sofrimento. Noutras línguas, como, por exemplo, em checo, em polaco, em alemão, em sueco, a palavra traduz se por um substantivo formado por um prefixo equivalente seguido da palavra ‘sentimento’ (em checo: sou cir; em polaco: wspol czucie; em alemão: Mit gefühl; em sueco: med känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que ninguém pode ficar indiferente ao sofrimento de outrem; ou, de outra maneira: sente se sempre simpatia por quem sofre. Outra palavra que tem mais ou menos o mesmo sentido, e que é piedade (em inglês pitv, em italiano pierà, etc.), chega até a sugerir uma espécie de indulgência para com o ser que sofre. Ter piedade de uma mulher é sermos mais favorecidos do que ela, é inclinarmos-nos, baixarmos-nos até ela.

Por isso é que a palavra compaixão inspira geralmente uma certa desconfiança; designa um sentimento considerado como de segunda ordem e que não tem grande coisa a ver com o amor. Amar alguém por compaixão é de fato não amar essa pessoa.

Nas línguas em que a palavra compaixão não se forma com a raiz ‘passio = sofrimento’ mas com o substantivo ‘sentimento’, a palavra é empregue mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta da sua etimologia banha a palavra de uma outra luz e dá lhe um sentido mais lato: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com o outro não só a sua infelicidade mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria, angústia, felicidade, dor. Esta compaixão (no sentido de soucit, wspolrzurie, Mitgefühl, medkänsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva, ou seja, a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

Sonhando que estava a enfiar agulhas por baixo das unhas, Tereza traía se a si própria porque revelava a Tomas que mexia às escondidas nas suas gavetas. Se fosse outra mulher, nunca mais lhe dirigiria palavra. Consciente disso, Tereza dissera lhe: ‘Põe me na rua!’ Ora, ele não só não a tinha posto na rua como lhe pegara na mão e lhe beijara a ponta dos dedos, já que, nesse momento, sentia a mesma dor que ela por baixo das unhas, como se os dedos de Tereza estivessem diretamente ligados ao seu cérebro.

Aquele que não possui o dom diabólico da compaixão (co-sentimento) não pode senão condenar friamente o comportamento de Tereza, porque a vida privada do outro é sagrada e não se devem abrir as gavetas onde ele guarda a sua correspondência pessoal. Mas como a compaixão se tornara o destino (ou a maldição) de Tomas, parecia lhe que fora ele que se ajoelhara em frente da gaveta da secretária e ficara hipnotizado pelas frases escritas pela mão de Sabina. Compreendia Tereza e não só era incapaz de querer lhe mal como o seu gesto o fazia amá-la ainda mais.

(…)

insustentável leveza do ser – kundera

Comentários»

1. Diogo Sardeiro - fevereiro 8, 2007

Ler seu blog não deixar de ser um exercício de compaixão.

E muito prazeroso por sinal.


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