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buraco-negro janeiro 15, 2007

Posted by igmaiki in outros textos.
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escrever é algo que faço porque eu sou só. hoje me senti só, muito mais do que ontem e talvez muito menos do que amanhã. a solidão não serve para agradar, muito menos é desagrado. a solidão – a minha solidão – é infinitamente natural. não é justo que eu seja só, é natural. eu nasci sendo só, eu cresci na solidão, eu morrerei sozinho. acho que dentro de mim não cabe mais alguém. mas eu tento pôr qualquer coisa. eu tento pôr qualquer coisa porque eu me sinto só. mas por quê. sendo natural – mas não justa – a minha solidão. por que tento preencher-me. será que tento preencher-me. eu não me sinto triste quando sinto toda a minha solidão apoderar-se de mim, como aconteceu hoje. eu me sinto uma estrela morta. um pequeno, melancólico, buraco-negro. minha solidão é melancólica. acredito que toda solidão é melancólica. minha solidão é negra, mas nem toda solidão é negra. é isso que sinto quando minha solidão me devora: melancolia, negro. eu sou um buraco-negro que não sabe que se é um buraco-negro. negro por dentro. buraco por fora. quando eu estou sozinho e percebo que sou só, eu não vejo ninguém. o mundo está cheio de pessoas. cadê essas pessoas. eu as vejo. mas cadê. eu não as vejo. ver e ver são diferentes. ver são com os olhos e ver são com algo que não sei, pois nunca vi. eu sou um buraco-negro: eu não as vejo. eu não sei se há alguém que vê outra pessoa. eu não penso que sou diferente, mas talvez eu seja. as pessoas estão aí, indo e vindo com outras pessoas a sorrir. quem são elas. alguém. ninguém. iguais. eu não as vejo e quando estou sozinho e percebo que sou só eu sinto falta das pessoas, talvez porque eu me transformo em um buraco-negro que consome tudo que vê. um buraco-negro que eu sou não poderia ver, senão não seria negro, não seria buraco. na medida que eu sou buraco-negro eu sinto falta das pessoas, porque eu as quero. mas por que, se minha solidão é natural, querer as pessoas. meu paradoxo me asfixia, eu morro nele, e aos poucos me torno mais negro, mais buraco. eu não sei não-ser buraco, mas eu não quero ser buraco. eu não sei o que é estar cheio. eu não sei o que é estar vazio. eu não sei o que é estar completo. eu não sei o que estar incompleto. eu sou a intercessão entre todos esses adjetivos sem sentido, portanto, eu tenho sentido, porém não sei que sentido eu tenho. mas vê: quando não sei o sentido, o sentido não existe, porque tudo que não sei não existe. então não pode ser tudo, é nada. não, não é. porque eu sou um buraco-negro. não é porque não pode ser. se ser, se tudo, eu deixo de ser sozinho, eu deixo de ser buraco, eu deixo de ser negro, por isso, nada, não é: eu sou sozinho, eu sou buraco, eu sou negro.

quando eu não estou sozinho, eu sou sozinho. quando eu estou com alguém, eu estou com ninguém. o alguém são essas pessoas que só vejo, mas não vejo – e que são ninguém. algumas pessoas me completam ou me completaram, mas eu nunca fui completo. quando eu estou com as pessoas que me completam, eu não sou completo, mas não sou incompleto: eu sou sozinho. eu nunca fui incompleto porque sempre houve aqueles que me completam, mas mesmo completo, eu sou sozinho. eu nunca fui cheio porque eu sou sozinho. mas eu já fui cheio, e mesmo quando não fui cheio, eu não fui vazio porque eu sou sozinho. eu nunca fui vazio porque eu sou sozinho. mas eu já fui vazio e mesmo quando fui vazio, eu não fui cheio porque eu sou sozinho. eu não posso ser nada do que se possa ser porque eu sou sozinho. a solidão me devora qualquer potencialidade de ser. minha solidão é deus, porque só se é ela. eu sou um buraco-negro e um buraco-negro não pode ser outra coisa a não ser um buraco-negro. eu tenho vontade de chorar quando eu percebo que sou sozinho. por que. talvez por que eu não quero ser buraco-negro. eu tenho medo de não-ser buraco-negro. eu tenho medo de não-ser sozinho porque eu não sei não-ser sozinho. eu tenho medo de não-ser sozinho porque não-ser sozinho não existe. e eu tenho medo do que não existe. o que não existe é o desconhecido, eu não tenho armadura para o desconhecido, para o não-ser sozinho, por isso eu tenho medo. mas eu quero chorar porque eu sou sozinho. eu quero chorar porque o mundo me faz acreditar que ser o desconhecido é melhor. por que é melhor. a quem é melhor. mas eu fico triste mesmo assim quando fora de mim ao ser buraco-negro, ao perceber que sou sozinho, eu quero chorar. eu não fico triste quando eu percebo que sou sozinho. eu fico triste quando eu fico fora de mim ao perceber que sou sozinho. eu quero chorar, mas eu não consigo porque eu sou buraco-negro e antes da minha lágrima cair eu já devorei ela. minha solidão já devorou a lágrima que cairia da solidão. eu, na qualidade de ser sozinho, de ser buraco-negro, choro por dentro. não. eu choro para dentro. eu choro minha solidão para dentro de mim. minha lágrima cai dentro de mim, e eu fico todo encharcado de lágrima. isso acontece o tempo todo e as pessoas não percebem, por isso que eu tenho forte convicção que as pessoas não vêem, e já que não vêem, são sozinhas, talvez sejam até mesmo buracos-negros. ou talvez sejam só pessoas. na medida que as pessoas não me percebem eu me torno mais ainda buraco, eu me torno mais ainda negro porque essa ausência de ver das pessoas me vendo me extingue os seres e eu me torno mais ainda sozinho, mais ainda buraco, mais ainda negro. tudo é uma elipse perfeita: sozinho-buraco-negro. elipse porque é buraco-negro, elipse porque converge para um ponto negro e esse ponto sou eu, esse ponto é a minha solidão. esse ponto nada, não é: eu sou sozinho, eu sou buraco, eu sou negro.

Comentários»

1. Jennifer - janeiro 16, 2007

Nelson Rodrigues uma vez disse que “A convivência com as pessoas nos leva à solidão”… talvez fosse a esse sentimento de buraco-negro que ele se referia. Acho que, no fim de tudo, somos todos buracos-negros, tentando um pouquinho de aproximação, como na fábula dos na parábola dos porcos-espinhos…
Não sei se posso te ajudar a livrar-se desse sentimento de solidão, porque ele vem da consciência de que, realmente, em um mundo de um monte de iguais, estamos compeltamente sós. Sozinhos com nossos medos, nossas dúvidas, nossas angústias e até mesmo com nossa compaixão. E parece-nos muito arriscado sair desse casulo em que vivemos.

2. Jennifer - janeiro 18, 2007

Ei Igor! Sobre vingança, eu ainda não tenho uma opinião formada. Acho que pode sim, ser orgulho ferido, mas nem sempre (isso daria uma longa discussão…rs). Em breve chegarei a uma conclusão.

Pensei que o enunciador do texto sobre solidão fosse você mesmo! Mas agora, pensando na solidão como necessidade à própria existência, nesse sentido catártico, senti uma profunda melancolia. Se o estar só como buraco negro no mundo faz sofrer, e há um desejo de sair dessa solidão e ir de encontro a outros buracos-negros, porque então resistir? Simplesmente por temor? Talvez seja mesmo o costume, e a dificuldade em se alterar a estase do estado de solidão… Pensarei sobre isso.

3. Ricardo - fevereiro 26, 2007

Gostaria de dizer algo para confortar-te mas não tenho. Todavia o simples fato de não ter o que dizer pode já ser um conforto.
Gostaria de tentar aproximar a minha solidão da tua, mas é arriscado, pois, provavelmente sairíamos mais sós ainda.
Então não tendo muito o que fazer coloco-me a disposição para o debate. Na esperança de chegarmos a alguma conclusão ou à falta dela e com isso tentar manter o pouco que ainda resta da lucidez se é que ainda resta alguma.
Abraços solitários e solidários


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