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“Questões Políticas” novembro 26, 2006

Posted by igmaiki in Literatura.
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Havia já muita gente na esplanada que entestava com a íngreme escadaria de acesso. Dos dois lados, ao longo dos muros, encontravam-se as tendas dos bufarinheiros, outras onde se vendiam os animais para o sacrifício, aqui e além, dispersos, os cambistas com suas bancas, grupos que conversavam, gesticulantes mercadores, guardas romanos a pé e a cavalo vigiando, liteiras a ombros de escravos, e também os dromedários, os jumentos ajoujados de carga, por toda a parte um vozear frenético, agora logo débeis balidos de cordeiros e cabritos, alguns que iam transportados ao colo ou às costas, como crianças cansadas, outros, arrastados, de corda ao pescoço, mas todos a caminho da morte no cutelo e da consumição do fogo. Jesus passou pelo balneário para purificar-se, depois subiu a escadaria e, sem parar, atravessou o Átrio dos Gentios. Entrou no Átrio das Mulheres pela porta entre a Sala dos Óleos e a Sala dos Nazarenos, e encontrou o que tinha vindo buscar, os anciãos e os escribas que, segundo o antigo costume, ali dissertavam sobre a Lei, respondiam a questões e davam conselhos. Havia alguns grupos, o rapaz aproximou-se do menos numeroso no preciso momento em que um homem levantava a mão para fazer uma pergunta. O escriba assentiu com um sinal e o homem disse, Explica-me, peço-te, se devemos entender, palavra por palavra, sentido por sentido, como está escrito, as leis que o Senhor deu a Moisés no Monte Sinai, quando prometeu fazer reinar a paz na nossa terra e que ninguém perturbaria o nosso sono, quando anunciou que faria desaparecer de entre nós os animais nocivos e que a espada não passaria pela nossa terra, e também que, perseguindo nós os nossos inimigos eles cairiam sob a nossa espada, cinco dos vossos perseguirão um cento, e cem dos vossos perseguirão dez mil, disso o Senhor, e os vossos inimigos cairão diante da vossa espada. O escriba olhou com expressão desconfiada o perguntador, se seria um intrometido rebelde aqui mandado por Judas Galileu para alvoroçar os espíritos com malévolas insinuações sobre a passividade do Templo perante o poder de Roma, e respondeu, brusco e breve, Essa palavra disse-a o Senhor quando os nossos pais estavam no deserto e eram perseguidos pelos egípcios. O homem tornou a levantar a mão, sinal doutra pergunta, Devo entender que as palavras do Senhor ditas no Monte Sinai só valeram para aqueles tempos, quando nossos pais buscavam a terra da promissão, Se assim o entendeste, não és um bom israelita, a palavra do Senhor valeu, vale e valerá por todos os tempos passados e futuros, a palavra do Senhor estava na mente do Senhor antes que ele falasse e nela continua depois que ele se calou, Tu foste quem disse o que a mim proíbes de pensar, Que pensas tu, Que o Senhor consente que as nossas espadas não se levantem contra a força que nos está oprimindo, que cem dos nossos não ousem atrever-se contra cinco deles, que dez mil judeus tenham de encolher-se diante de cem romanos, Estás no Templo do Senhor e não num campo de batalha, O senhor é o deus dos exércitos, Mas, lembra-te, o Senhor impôs as suas condições, Quais, Se cumprirdes as minhas leis, se guardardes os meus preceitos, disso o Senhor, Que leis não cumprimos e que preceitos não guardámos para que tenhamos de aceitar por justa e necessária, como castigo de pecados, a dominação de Roma, O Senhor o saberá, Sim, o Senhor o saberá, quantas vezes o homem peca sem saber, mas explica-me por que se serve o Senhor do poder de Roma para castigar-nos, em vez de o fazer directamente, cara a cara com aqueles a quem elegeu para seu povo, O Senhor conhece seus fins, o Senhor escolhe os seus meios, Queres então dizer que é a vontade do Senhor que os romanos mandem em Israel, Sim, Se é como dizes, temos de concluir que os rebeldes que andam a lutar contra os romanos estão também a lutar contra o Senhor e a sua vontade, Concluis mal, E tu contradizes-te, escriba, O querer de Deus pode ser um não querer, o seu não querer a sua vontade, Só o querer do homem é verdadeiro querer, e não tem importância perante Deus, Assim é, Então, o homem é livre, Sim, para poder ser castigado. Correu um murmúrio entre os circunstantes, alguns olharam o que fizera as perguntas, sem dúvida pertinentes à luz dos textos, mas politicamente inconvenientes, olharam-no como se ele, justamente, é que devesse assumir os pecados todos de Israel e por eles pagar, aliviados os suspeitosos, de qualquer modo, pelo triunfo do escriba, que recebia, com um sorriso complacente, os cumprimentos e os louvores. Seguro de si, o mestre olhou em redor, solicitando outra interpelação, como o gladiador que, tendo-lhe calhado um adversário fraco, reclama outro de maior porte que lhe dê mais glória. Mias um homem levantou a mão, outra pergunta se apresentava, O Senhor falou a Moisés e disse-lhe, O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-los-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros nas terras do Egito, isto disso o Senhor a Moisés, Não acabou, porque o escriba, quente ainda da primeira vitória, interrompeu com ironia, Presumo que não é tua ideia perguntar-me por que não tratamos nós os romanos como nossos compatriotas, uma vez que são estrangeiros, Perguntar-to-ia se os romanos nos tratassem a nós como compatriota seus, sem cuidarmos, nós e eles, doutras leis e outros deuses, Também tu vens aqui provocar a ira do Senhor com interpretações diabólicas da sua palavra, interrompeu o escriba, Não, quero apenas que me digas se em verdade pensas que cumprimos a palavra santa quando os estrangeiros o forem, não à terra onde vivemos, mas à religião que professamos, A quem te referes, em particular, A alguns hoje, a muitos no passado, talvez a muitos mais amanhã, Sê claro, por favor, que não posso perder tempo com enigmas nem parábolas, Quando viemos do Egipto, viviam na terra a que chamamos Israel outras nações que tivemos de combater, naqueles dias os estrangeiros éramos nós e o Senhor deu-nos ordem para matássemos e aniquilássemos os que se opunham à sua vontade, A terra foi-nos prometida, mas tinha de ser conquistada, não a comprámos nem nos foi oferecida, E hoje é sob um domínio estrangeiro que estamos vivendo, a terra que havíamos tornado nossa deixou de o ser, A ideia de Israel mora eternamente no espírito do Senhor, por isso, onde quer que esteja o seu povo, reunido ou disperso, aí estará o Israel terrestre, Daí se deduz, suponho, que em toda a parte onde nós, judeus, estivermos, sempre os outro homem serão estrangeiros, Aos olhos do Senhor, sem dúvida, Mas o estrangeiro que viva conosco será, segundo a palavra do Senhor, nosso compatriota e a ele devemos amar como a nós mesmo porque fomos estrangeiros no Egipto, O Senhor o disse, Concluo, então, que o estrangeiro que devemos amar é aquele que, vivendo conosco, não seja tão poderoso que nos oprima, como é, nos tempos de hoje, o caso dos romanos, Concluis bem, Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselham as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quando for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba. Novamente se ouviram murmúrios de aprovação que fizeram brilhar os olhos do escriba como os de um vencedor de pancrácio, um discóbolo, um retiário, um condutor de carros. A mão de Jesus levantou-se. Nenhum dos presentes estranhou que um rapaz desta idade se apresentasse a interrogar um escriba ou um doutor do Templo, adolescente com dúvidas sempre os houve, desde Caim e Abel, em geral fazem perguntas que os adultos recebem com um sorriso de condescendência e uma palmadinha nas costas, Cresce, cresce, e vai ver como isso não tem importância, os mais compreensivos dirão, Quando eu tinha a tua idade também pensava assim. Uns tantos dos presentes afastaram-se, outros preparavam-se já para o fazer também, perante a mal encoberta contrariedade do escriba que via escapar-se-lhe um público até aí atento, mas a pergunta de Jesus fez voltar atrás alguns que ainda a ouviram, O que eu quero saber é sobre a culpa, Falas de uma culpa tua, Falo de culpa em geral, mas também da culpa que eu tenha mesmo não tendo pecado directamente, Explica-te melhor, Disse o Senhor que os pais não morrerão pelos filhos nem os filhos pelos pais, e que cada um será condenado à morte pelo seu próprio delito, Assim é, mas deves saber que se tratava de um preceito para aqueles antigos tempos em que a culpa de um membro duma família era paga pela família toda, incluindo os inocentes, Porém, sendo a palavra do Senhor eterna e não estando à vista o fim das culpas, lembra-te do que tu próprio disseste há pouco, que o homem é livre para poder ser castigado, creio ser legítimo pensar que o delito do pai, mesmo tendo sido punido, não fica extinto com a punição e faz parte da herança que lega ao filho, como os viventes de hoje herdaram a culpa de Adão e Eva, nossos primeiros pais, Assombrado estou que um rapaz da tua idade e da tua condição pareça saber tanto das Escritura e seja capaz de discorrer sobre elas com tanta fluência, Sei apensa o que aprendi, Donde vens, De Nazaré de Galileia, Já me parecia pela maneira como falas, Responde ao que te perguntei, por favor, Podemos admitir que a principal culpa de Adão e Eva, quando ao Senhor desobedeceram, não tenha sido tanto haverem provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas a conseqüência que daí fatalmente teria de resultar, impedirem, com o seu pecado, que o Senhor viesse a cumprir o plano que tinha em mente ao criar o homem e depois a mulher, Queres tu dizer que todo o acto humano, a desobediência no paraíso ou qualquer outro, sempre interfere com a vontade de Deus, e que, finalmente, poderíamos comparar a vontade de Deus a uma ilha no mar, cercada e assaltada palas revoltas águas das vontades dos homens, esta pergunta lançou-a o segundo dos questionadores, tanto assim, respondeu cautelosamente o escriba, a vontade do Senhor não se contenta com prevalecer sobre todas as coisas, ela é o que faz que tudo seja o que é, Mas tu próprio disseste que a desobediência de Adão é causa de que não conheçamos os projecto que Deus tinha concebido para ele, Assim é, segundo a razão, mas na vontade de Deus, criador e regedor do universo, estão contidas todas as vontades possíveis, a sua, mas também a de todos os homens nascidos e por nascer, Se isso fosse como dizes, interveio Jesus, numa súbita iluminação, cada um dos homens seria uma parte de Deus, Provavelmente, mas a parte representada por todos os homens juntos seria como um grão de areia no deserto infinito que Deus é. O homem presunçoso que até aí o escriba havia sido desapareceu. Está sentado no chão, como antes, na sua frente, em redor, os assistentes olham-no como um sentimento em que há tanto de respeito quanto de temor, como diante de um mago que, involuntariamente, tivesse convocado e feito aparecer forças de que, a partir deste momento, só poderia ser súbdito. Descaídos os ombros, estiradas as feições, as mãos abandonadas sobre os joelhos, todo o corpo dele parecia pedir que o deixassem entregue à sua angustia. Os circunstantes começaram a levantar-se, alguns encaminharam-se para o Átrio dos Israelitas, outros chegavam-se aos grupos onde prosseguiam debates. Jesus disse, Não respondeste à minha pergunta. O escriba endireitou lentamente a cabeça, olhou-o com uma expressão de quem acabasse de sair de um sonho, e, após um longo, quase insuportável silêncio, disse, A culpa é um lobo que como o filho depois de ter devorado o pai, Esse lobo de que falas já comer o meu pai, Então só falta que te devore a ti, E tu, na tua vida, foste comido ou devorado, Não apenas comido e devorado, mas vomitado.

 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 14ª parte

José Saramago

 

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