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Aprender não, desaprender agosto 22, 2006

Posted by igmaiki in Crítica.
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Aprender não, desaprender: em vez de reproduzir um conjunto de idéias prontas, de dogmas e preconceitos, sem reflexões sobre eles, a escola deve colaborar para que o aluno passe a produzir o seu próprio conhecimento.

Aprender deve significar fundamentalmente desaprender certas coisas, ou seja, nos livrarmos daquilo que nos ensinaram a fazer e a pensar em detrimento da expressão livre da espontaneidade, foi o que disse o educador e psicanalista Robe  rto Freire (2001), em seu livro “Utopia e Paixão: a política do cotidiano”. A frase supracitada explana, entre outras idéias, de que a função da escola é primar pelo desenvolvimento da criatividade/espontaneidade da criança desde o seu primeiro contato com a aprendizagem.

A escola reproduz um conjunto de idéias prontas, de dogmas e preconceitos. Este fato é o mais prejudicial no aprendizado ideal da língua e para mudá-lo é preciso, necessariamente, mudar os valores da sociedade burguesa vigentes. Os educadores (enfim, todos) de hoje precisam desaprender um cabedal de valores chulos a respeito da educação e ensino de língua. Somos nós que precisamos aprender que um falante natural da língua é conhecedor de sue próprio idioma, já que se comunica plenamente; e nosso papel, portanto, é ampliar esse conhecimento a vários campos, ou seja, desenvolver os conhecimentos do indivíduo dentro do seu próprio idioma: saber as formas dialetais, as diferenças, quando deve ou não usá-las, respeitando seus limites, sua maneira de falar e entender a língua dentro da concepção lingüística.

 

Os mecanismos pelos quais nós, educadores, desenvolvemos a formação de uma pessoa deve ser refletida. Hoje em dia, o educador exerce o autoritarismo, impõe a vontade dele em cima da criança. A maneira que abordamos o fenômeno da aprendizagem é autoritária e não dá liberdade suficiente para criar uma mente crítica e criativa. O padrão educacional na prática é empirista-associacionista, ou seja, todo o conhecimento está no professor, sendo este ultimo a peça-chave para o desenvolvimento da criança. O professor é que sabe tudo corretamente, e o papel da criança é só captar tudo que o professor fala e faz. Essa prática não é ideal para o desenvolvimento de uma mente criativa, espontânea. Não é à toa que a criança, dentro dessa corrente de pensamento, é comparada à máquina: as informações devem ser armazenadas, recombinadas e em seguida recuperadas sendo introduzidas de fora para dentro da máquina, o mesmo acontecendo com os conhecimentos: o importante é saber reproduzir aquilo que foi transmitido. Com isso vêm as repressões no desenvolvimento da criança, passando para ela vários preconceitos (de certo/errado), dogmas etc.

 

Isso nos faz refletir sobre a teoria Construtivista do desenvolvimento da aprendizagem. Esta, por sua vez, nos explica que deve haver liberdade suficiente para que a criança faça o que sua criatividade/espontaneidade permitir. O Construtivismo, se pensado de maneira correta, elimina a possibilidade de encarar certas construções frasais da língua natural como corretas/errôneas. Diz-se língua natural porque existe uma dicotomia que diferencia esta ultima da língua artificial: o código escrito, regido pelas regras gramaticais. É nesta língua artificial que está toda a problemática da educação e ensino da língua. Ensinamos comumente às nossas crianças a “falar correto”, que “o português” é o português escrito e, portanto, dizemos que o português é difícil, que não sabemos português. Ora, dada a idéia, um japonês que estudou arduamente a gramática da língua portuguesa (o código artificial) sabe se comunicar melhor do que qualquer falante natural da língua portuguesa, que nasceu e cresceu desenvolvendo seu aparelho fonador e o complexo sistema significante/significado, mas que mesmo assim não teve oportunidade para estudar tão bem a gramática? Obviamente que não, por mais que um estrangeiro saiba a gramática da nossa língua porque a língua não é gramática nem regras para “falar bonito”. Qualquer estudante de língua nunca terá, por mais que se esforce, o sistema significante/significado de outra língua estrangeira, como o falante natural o tem.

A escola conserva estes dogmas desde épocas remotas. É só termos um olhar atento, no curso da história, sobre a concepção de língua que havia e, prejudicialmente, insiste em perdurar, como diz ironicamente o lingüista Marcos Bagno:

[…] num longo processo histórico, o que passou a se chamar de língua é uma coisa que é vista como exterior a nós, algo que estaria acima e fora de qualquer indivíduo, externo à própria sociedade: uma espécie de entidade mística sobrenatural, que existe numa dimensão etérea secreta, imperceptível aos nossos sentidos, e à qual só uns poucos iniciados têm acesso […] Essa concepção tradicional opera com uma sucessão de reduções: primeiro reduz a língua a “norma”; em seguida, reduz esta “norma” à gramática [,…] (BAGNO, Marcos. 2001, p. 17-18)

É difícil imaginar uma suposta solução para um problema que é sustentado por uma tradição do ensino da língua no Brasil. O preconceito com a língua está enraizado no preconceito social. Mas há sim como mudar isso: mudando primeiramente a concepção de língua dos professores e principalmente dos alunos. O Construtivismo ajuda-nos a pensar numa solução consistente porque considera o aluno um ser pensante com idéias próprias e com uma linguagem própria também. Pretende respeitar a criança em todos os seus níveis de desenvolvimento: linguagem, raciocínio, sexualidade. Não impondo nunca um pragmatismo gramatical como “língua correta” ajudando o aluno, desde cedo, a entender o funcionamento da língua, suas mais variadas formas dialetais e ensinando a cada um a respeitar como o outro fala.

Portanto, a aprendizagem da língua se faz na medida em que a criança vai construindo as noções do idioma, havendo continuidade nos processos avançados. No decorrer do tempo. Ao perceber que a criança adquiriu maturidade para entender seu próprio idioma, faz necessário apresentá-la às diversas formas dialetais da sua própria língua de acordo com o contexto em que ela se põe. Formaremos assim, indivíduos pensantes sobre o fenômeno lingüístico, pensadores naturais da língua, através dessa educação que prima pelo desenvolvimento constituindo um processo que diz respeito a situações específicas da fala cotidiana.

Comentários»

1. leda - abril 15, 2008

Mais a dialetologia nos mostra que a única variante correta é a falada pelas camadas da populaçao?

2. leda - abril 16, 2008

Ola! Necesito ajuda…
Necesito de um texto reflexivo, expondo o que aconteceu sobre a “virada pragmática” sobre a qual discorremos até o momento e em que medida a pragmática e a sociolinguística se interpenetram.

OBS,: Com base no texto “OS LIMITES DA SEMÂNTICA E DA PRAGMÁTICA”


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