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A educação pela pedra agosto 28, 2007

Posted by igmaiki in Literatura.
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Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua vaz inenfática, impessoal
(pela dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
liçoes da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se parende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

“A educação pela pedra” (1962-1965), de João Cabral de Melo Neto. Poema “A educação pela pedra”.
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Portanto, só quando amar é dever, só então o amor está eternamente assegurado. agosto 20, 2007

Posted by igmaiki in Filosofia.
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Portanto, só quando amar é dever, só então o amor está eternamente assegurado. Esta garantia da eternidade lança fora toda angústia e torna perfeito o amor, perfeitamente garantido. Pois naquele amor que só tem duração, por mais cheio de confiança que ele, há todavia ainda uma angústia, uma angústia diante da possibilidade da alteração. Ele mesmo não compreende, tampouco como o poeta, que se trata da angústia; pois a angústia se oculta, e só o desejo ardente é a expressão pela qual se reconhece que a angústia se oculta no fundo. Não fosse assim, de onde viria então que o amor espontâneo esteja tão inclinado, sim, tão enamorado de pôr à prova o amor? É justamente porque ele não se submeteu à “prova” no sentido mais profundo, transformando-se em dever. Daí vem essa doce inquietação, como o poeta a chamaria, que de maneira cada vez mais atrevida quer fazer a prova do amor. O amante quer pôr à prova a amada, o amigo quer pôr à prova o amigo; é claro que este exame tem seu fundamento no amor, mas este prazer de prova, que se inflama febrilmente, este anelo do desejo de ser posto à prova explica, contudo, que inconscientemente o amor está inseguro de si mesmo. Mais uma vez, aqui, há um enigmático mal-entendido no amor espontâneo e nas explicações do poeta. Os amantes e os poetas acham que esse prazer de querer provar o amor é precisamente uma expressão de quão seguro ele está. Mas será que é assim mesmo? É bem correto que não desejamos pôr à prova aquilo que nos é indiferente; mas daí não se segue, afinal, que o querer pôr à prova o que se ama seja uma expressão de segurança. Os dois se amam mutuamente, amam-se mutuamente para toda a eternidade, eles estão tão seguros disso que eles o provam. Será esta certeza a mais alta? Não seria aqui exatamente o mesmo caso como quando o amor jurava e contudo jurava por algo que é mais abaixo do que o amor? Assim é, afinal, aqui, a expressão mais elevada dos amantes para a continuidade do seu amor, uma expressão de que ele apenas perdura, pois aquilo que apenas se mantém, nós o provamos, nós pomos à prova. Mas quando há o dever de amar, aí não é necessária nenhuma prova, nem o atrevimento que a insulta ao querer provar; aí o amor é superior a qualquer prova, ele já conseguiu mais do que passar numa prova, no mesmo sentido em a fé é “mais do que vencedora”. O provar se relaciona sempre com uma possibilidade, é de qualquer modo sempre possível que aquele que é provado não seja aprovado. Caso, então, alguém quisesse provar se tem fé, ou prova para receber a fé, isso significaria propriamente que ele se impedirá de receber a fé, colocar-se-á a si mesmo na inquietação de uma aspiração, onde a fé jamais vence, pois “tu deves amar”. Se caso um crente quisesse pedir a Deus para colocar sua fé à prova, isso não seria uma expressão de que este crente tem fé em um grau extraordinariamente alto (pensar assim é um mal-entendido do poeta, assim como também é um mal-entendido ter fé num grau “extraordinário”, uma vez que a fé ordinária é o que é de mais alto), mas é uma expressão de que ele não tem uma fé completa, pois “tu deves crer”. Jamais se encontrou uma garantia mais alta, e jamais se encontrou a calma da eternidade em alguma outra coisa que não fosse este “deves”. Por mais delicioso que seja, não deixa de ser um pensamento inquieto o querer “provar”, e é a inquietude que te quer convencer de que esta seria uma convicção mais alta; pois provar é em si mesmo inventivo e jamais se esgota, tampouco quanto a sabedoria humana consegue calcular todos os casos, enquanto, ao contrário, como um homem sério o diz tão acertadamente, “a fé calculou todos os casos”. E quando se deve, então está decidido para toda a eternidade, e quando compreenderes que tu deves amar, teu amor estará assegurado eternamente.

As Obras do Amor: algumas considerações cristãs em forma de discursos – Søren A. Kierkegaard

 

A singularidade do Aikido agosto 5, 2007

Posted by igmaiki in Aikido.
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Em sua essência, o Aikido é uma manifestação moderna das artes marciais japonesas (Budo). É ortodoxo enquanto tem como legado a tradição espiritual e marcial do antigo Japão, registrada pela primeira vez nas obras literárias e históricas do século VIII, Kojiki (Compilação dos Fatos Antigos) e Nihongi (Crônicas do Japão). Isso não quer dizer que o Aikido continue cegamente a tradição das antigas artes de combate, meramente preservando e mantendo a sua forma original no mundo moderno.

As antigas artes de combate constituem um legado histórico e cultural, tendo se originado no campo de batalha em períodos de conturbações sociais e posteriormente formalizadas como Budo, o Caminho das Artes Marciais, no período Tokugawa (1603-1868). Precisam ser avaliadas e apreciadas devidamente. Em sua forma original, não são aceitas pelas pessoas de hoje e estão fora de lugar no mundo moderno que, especificamente para o Japão, teve início com a Restauração Meiji (1868).

O fundador do Aikido, mestre Morihei Ueshiba, nasceu em 14 de dezembro de 1883. Vivendo no período turbulento da modernização do Japão, dedicou-se a criar uma arte marcial que fosse ao encontro das necessidades dos seus contemporâneos, mas que ao mesmo tempo não fosse anacrônica. Os fatores seguintes constituíam o núcleo do empenho do mestre Ueshiba: um amor permanente pelas artes marciais tradicionais, o cuidado para que esse amor não fosse mal entendido, e um desejo profundo de reviver a qualidade espiritual do Budo. Procurou alcançar seu objetivo através de uma busca incansável, alimentada por um treinamento constante nas artes marciais, da verdade do Budo por entre as vicissitudes da história japonesa moderna.

Por fim, mestre Ueshiba concluiu que o verdadeiro espírito do Budo não se encontra numa atmosfera competitiva e combativa, em que a força bruta domina e o objetivo maior é chegar à vitória a qualquer preço, mas sim na busca da perfeição como ser humano, física e mentalmente, através de treinamento cumulativo com espíritos gentis nas artes marciais. No seu ponto de vista, somente uma manifestação de Budo com as características de verdade como esta pode ter uma raison d’être no mundo moderno, e quando essa qualidade existe, ela está além de qualquer cultura ou época específica. Seu objetivo, de natureza profundamente religiosa, resume-se numa única afirmação: a unificação do princípio criador fundamental, ki, que permeia o universo, com o ki individual, inseparável da força da pulsação, de cada pessoa. Pelo treinamento constante da mente e do corpo, o ki individual se harmoniza com o ki universal, e essa unidade se manifesta no movimento dinâmico e ondulante do poder do ki, que é livre e fluido, indestrutível e invencível. Esta é a essência das artes marciais japonesas, e é assim que o Aikido a encarna.

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